Psicologia Analítica e Amadurecimento Psíquico – Parte 3/3

  • Amadurecimento, Psicanálise, Psicologia, Saúde Mental

Este é a terceira parte da série de 3 artigos Psicologia Analítica e Amadurecimento Psíquico. Leia a primeira e a segunda parte!

 

ENVELHECIMENTO E MORTE

É necessária a reflexão cuidadosa no que diz respeito à morte e à velhice. Existem diversos fatores que culminam num envelhecimento saudável. Atividades físicas e higiene mental são alguns, no entanto, como muitos estudos denotam, é de suma importância a compreensão e aceitação da morte como parte deste bem estar.

Quando crianças, é comum só pensarmos na morte quando temos contato direto com ela – como a morte de um parente, por exemplo – e ainda assim não compreendemos sua magnitude e o que representa. “Vovô foi para o céu, virou estrela, virou anjo”, esses simbolismos acabam suavizando a experiência da compreensão da finitude. Quando adolescentes, sabemos de sua existência, mas não a levamos a sério, somos ‘super-heróis imortais’. Já adultos, a ideia da finitude já está mais amadurecida, mas a rotina, planos, trabalho e responsabilidades afastam a reflexão desse tema e só damos seu devido valor quando atingimos a terceira idade, quando o corpo começa a padecer, as rugas aparecem, os cabelos ficam brancos e os filhos saem de casa.

No passado, a morte era mais presente na vida das pessoas e das famílias, pois era comum que as famílias morassem próximas umas das outras, quando não sob o mesmo teto. Visitas eram mais frequentes, atualmente vemos alguns membros de nossas famílias apenas no natal ou outras datas festivas. Acompanhava-se o envelhecimento dos familiares de perto e era possível preparar-se para tal. Como resultado do estilo de vida de nossa modernidade, trabalhos fora de casa e aumento de desafetos fazem com que os membros da família acabem vivendo mais afastados, geograficamente e emocionalmente.

Além disso, a tecnologia e modernização das práticas de saúde fazem com que internações sejam cada vez mais comuns, o que acarreta um isolamento do idoso. Atualmente, nos afastamos da doença e da morte como se estas não fizessem parte da vida humana. Na nossa cultura, a doença e a morte devem ficar restritas aos hospitais e às UTI’s, repletas de instrumentos e aparelhos de última geração, onde os idosos morrem sozinhos como se fossem apenas um ser dotado de um corpo meramente psicológico (SCHWARZ, 2008, p. 44)

 

ENVELHECIMENTO E DEPRESSÃO

Cada vez mais, doenças psiquiátricas aumentam, juntamente com o envelhecimento da população. A doença que mais atinge esse grupo populacional é a depressão, que em sua forma mais acentuada pode acarretar uma total incapacidade funcional. Sendo mais comum em mulheres, a depressão tem sintomas como “sentimentos de preocupação e insatisfação, perda de interesse ou satisfação pelas coisas, sensação de tristeza e diminuição da capacidade física para atividades rotineiras” (SCHWARZ, 2008, p.48).

No entanto, é pertinente salientar que a depressão é defendida por alguns autores do campo psíquico como resultado de uma experiência humana que não é consequência do ato de envelhecer em si, mas na verdade de um distanciamento que esta população tem em relação a sua respectiva subjetividade.

“A depressão é colocada pela autora como tendo um valor importante ao sinalizar a necessidade de integração de aspectos dissociados do self, e o processo terapêutico, no caso, as consultas terapêuticas, pode ser um meio valioso para idoso retomar um caminho criativo e integrado de crescimento”. (SCHWARZ apud GIL, 2008)

Percebemos, portanto, que envelhecer, além de ser parte natural e essencial para a maturidade da alma, exige também um certo desprendimento das estruturas dominantes a fim de que a própria individualidade, em sua completude e potencial, se manifeste. Sendo assim, torna-se essencial que qualquer indivíduo que interaja com a terceira idade, seja com avós, ou como profissionais da saúde, considerem toda a dimensão e amplitude do envelhecer, não só para auxiliar os idosos em seus processos e reestruturações, mas também para enriquecer sua própria experiência, afinal, o sol se põe para todos.

 

ENVELHESER

Envelhecer

Ser alguém?

Ainda dá tempo para se conhecer?

Ainda dá tempo para viver?

Ser outro?

Ser mais pleno?

Ser mais autêntico?

O que resta para ser?

Ser resto?

Ser sábio?

Ser mais verdadeiro?

Ser o que se é…

Envelheser

O que fui, já não sou?

Quem está sob minhas rugas?

Me desconheço no meu passo lento

mas me reconheço quando olho para trás

e vejo o caminho feito

e as sementes brotando…

Envelheser

Colher o que foi plantado

Cultivar o que ainda cresce e ainda pode desabrochar

Porque a vida flui eternamente

Amar sempre

Acreditar que todo caminho tem seu significado

Acreditar que o envelhecer tem um sentido

E que o fim, assim como o começo, está profundamente conectado

ao movimento circular da vida.

(Lidia Rodrigues Schwarz, 2006)

 

Referências Bibliográficas:

ARCUR, I. G. Envelhecimento à luz da Psicologia Analítica. Revista Transdisciplinar de Gerontologia. Ano 2, Vol. I, Janeiro/ junho 2008.

SCHWARTZ, L. R. EnvelheSer – A Busca do Sentido da Vida na Terceira Idade. Uma Proposta de Psicoterapia Grupal Breve de Orientação Junguiana. Tese de Doutorado em Psicologia. USP. 2008.

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