Psicologia Analítica e Amadurecimento Psíquico – Parte 1/3

  • Amadurecimento, Mitologia, Psicologia, Psicologia Analítica, Saúde Mental

INTRODUÇÃO

Os heróis gregos, apesar de negligenciados pelas pessoas comuns, são fontes ricas de simbolismos que ajudam e complementam a busca do homem por si mesmo. Nas tragédias gregas, encontramos uma série de aforismos que nos indicam algumas estruturas, apresentadas como metáforas, que nos dão alguns insights sobre a realidade psíquica da humanidade e, por conseguinte, a nossa própria.

Quando o jovem Édipo encontra a Esfinge, a mesma lhe adverte: Decifra-me ou te devoro! Qual criatura anda com quatro patas pela manhã, duas pela tarde e três ao anoitecer?

É de suma importância, antes de revelarmos a resposta, compreender que Édipo pode ser compreendido aqui como nosso jovem ego, que em sua jornada introspectiva por esclarecimento e autoconhecimento, topa com a Esfinge, símbolo da guardiã do nosso mundo inconsciente.

O Homem! – Responde o príncipe – Que ao nascer engatinha e anda com quatro patas, atinge a maturidade e ereto anda com as duas pernas e em sua velhice precisa da bengala para se movimentar, andando portanto com três pernas. Tendo acertado a resposta, sua passagem é concedida evitando assim que fosse devorado.

“Oedipe et le sphinx” de Gustave Moreau Fabre (1864)

Acessando uma camada mais discreta e sutil da mitologia grega, notamos que a alegoria diz respeito a nossa maturidade psíquica. Precisamos conhecer a nossa própria natureza, e para isso, entender e aceitar que a vida é feita de ciclos, que para tudo existe uma fase e um momento de ser. Será abordada neste texto, a visão, sob a luz da Psicologia Analítica, do amadurecimento psíquico.

A Psicologia Analítica foi criada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, que fora discípulo de Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Jung discordava de Freud em alguns pontos chaves da psicologia do inconsciente e por isso rompeu com o mestre a fim de disseminar suas próprias ideias.

Para Jung, o inconsciente é um sistema autônomo de suma importâncias para a homeostase (equilíbrio) psíquica. Tanto o inconsciente quanto a consciência seriam complementares, dependentes um do outro. Um indivíduo saudável seria aquele que consegue dialogar sua consciência com o inconsciente, dando voz e sentido para ambos.

O principal canal de comunicação entre estas duas instâncias seriam os símbolos, que permitiriam que a consciência expandisse através da integração e relação constante das polaridades internas. O símbolo seria a chave que permite a transcendência do maniqueísmo neurótico que tanto nos assola: a divisão crua entre bem e mal, certo e errado, etc.

A compreensão de uma psique polar, ou seja, que contempla duas realidades complementares é uma estrutura básica para compreensão da concepção Junguiana da mente, fiquemos atentos a essa dinâmica de complementariedade, ela aparecerá mais vezes ao longo do texto e será essencial.

Para encerrar essa introdução teórica, devemos cristalizar alguns conceitos que são necessários para a compreensão de alguns fenômenos que acontecem ao longo da jornada do indivíduo ao inverno de sua vida.

Ego: Pode ser considerado um conjunto de pensamento, emoções e sensações que delimitam o universo pessoal do indivíduo. É o famoso “EU”. Com ele garantimos “uma certa identidade física e psicológica, representa apenas uma parcela do espectro psíquico e não sua totalidade” (ARCURI, 2008, p. 83)

Self: Considerado como a grande totalidade da psique, que abarca todo o consciente e o inconsciente. Nele encontramos a fonte de toda a criatividade e sua delimitação transcende a concepção individual.

“É a fonte de nossas tendências mais elevadas, tais como consciência altruísta, vontade e amor. O Self é a fonte de amor, sabedoria e inspiração criativa dentro do indivíduo. É o centro superior da personalidade, além do ego, abre-se para ser um fonte inexaurível de criação e compaixão” (ARCURI, 2008, p. 83)

Individuação: É o nome dado a um processo que ocorre por toda a vida que consiste na integração dos opostos psíquicos e no afloramento da essência da personalidade, dissolvendo as ‘máscaras’ psíquicas e permitindo um desenvolvimento psíquico saudável e integrado. A individuação, como dito, ocorre durante toda a vida, mas é acentuada na segunda etapa da história do indivíduo, quando é chamada de metanóia.

Referências Bibliográficas:

ARCUR, I. G. Envelhecimento à luz da Psicologia Analítica. Revista Transdisciplinar de Gerontologia. Ano 2, Vol. I, Janeiro/ junho 2008.

SCHWARTZ, L. R. EnvelheSer – A Busca do Sentido da Vida na Terceira Idade. Uma Proposta de Psicoterapia Grupal Breve de Orientação Junguiana. Tese de Doutorado em Psicologia. USP. 2008.

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